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Vassoura - Você não está sozinha | AVON

VASSOURA [Violência Sexual]

                                           

Foi numa quarta-feira à noite.

Ele tinha acabado de sair do trabalho quando me encontrou.

Naquele ponto, eu já tinha perdido qualquer esperança de que alguém me escolhesse.

Já fazia seis meses que eu estava jogada naquele mesmo canto do supermercado.

Já tinha assistido a muitas outras como eu serem levadas.

Mas eu seguia lá. Parada. Sem função alguma. Apenas esperando minha vez.

Ele chegou bem vestido. Com um terno impecável, que não entregava o dia cheio de reuniões que acabara de ter.

A primeira coisa que reparei foi o sorriso, seguido de um olhar encantador, que fez minha perna tremer.

Entre tantas marcas, preços e cores, ele me escolheu.

Foi como se a partir daquele dia, minha vida tivesse um sentido, uma função.

Finalmente.

Era um apartamento pequeno, mas superaconchegante.

Naquela mesma noite, a conheci.

Ela sorriu ao me ver e agradeceu o marido por ter me levado para casa.

Dali em diante, todo dia era festa.

Conheci os três cômodos do apartamento melhor que qualquer um.

Participei de festas de aniversário, jantares com amigos e até mesmo de uma ceia de Natal, com a família toda reunida.

Entre as poeiras embaixo do sofá e algumas migalhas de pão do café da manhã, comecei a perceber que copos se quebravam com certa frequência.

Nada incomum em uma família desastrada.

Eram apenas copos.

Repostos rapidamente pelo marido, que sorria encantadoramente toda vez que chegava à casa. Sempre no fim do dia.

Já a esposa, não sorria com tanta frequência.

Acompanhei alguns choros durante o dia, sempre quando o marido não estava.

Também já a vi perder a paciência com coisas simples.

Ela parecia sempre agitada, confusa.

Dormia muito durante a tarde, como se tivesse passado a noite toda em claro.

Sempre tive vontade de falar alguma coisa, mas eu não tinha do que reclamar.

Minha vida estava bem melhor do que nos dias gelados do supermercado.

Até aquela noite de segunda-feira.

Estranhei a movimentação na cozinha.

Ele nunca me buscava na despensa. Muito menos naquele horário.

Dessa vez, sem sorriso encantador no rosto, me pegou bruscamente e me levou ao quarto. Onde a vi.

Ela chorava compulsivamente, encolhida na cama do casal.

Eu não entendi o que fazia ali, mas tive medo.

Ele me levou para perto dela.

Movido por uma raiva muito maior do que aqueles 40 ou 50 metros quadrados que eu conhecia tão bem.

 

Ela gritava de dor. 

 

O movimento se repetiu algumas vezes.

Não sei ao certo quantas.

Entrei. Saí.

Entrei. Saí.

Entrei. Saí.

 

Os pedidos de socorro ecoavam por todo o apartamento, na esperança de que alguém pudesse impedir aquilo.

Como se eu tivesse algum controle sobre o que estava acontecendo.

Foi tudo muito rápido.

Poucos minutos depois, ela parou de chorar.

Congelada.

Do jeito que eu ficava naquelas noites intermináveis no mercado.

Não demorou muito para que eu estivesse de volta à despensa.

No dia seguinte, a encontrei novamente.

Ele receberia naquela noite os colegas do escritório para um jantar.

E a casa precisava estar impecável.

Ela parou de chorar às 20h quando ele abriu a porta.

Contagiando toda a casa com seu sorriso encantador.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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