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Ursinho - Você não está sozinha | AVON

URSINHO [Violência Psicológica/Infantil]

 

Durante 12 ou 13 anos, fomos grandes amigos.

Sempre fui um porto seguro pra ela. E sempre soube que precisava estar ali, firme e forte, a ajudando a enfrentar os medos e os monstros.

Aprendi desde cedo que se uma porta batesse, um vaso quebrasse ou alguém gritasse, era o momento em que ela mais iria precisar de mim.

Ela me abraçava forte. Tão forte, que chegava a doer.

Mas eu não reclamava, sabia que ela precisava daquilo.

E foi assim até seu décimo quarto aniversário.

Naquele ano, nós que antes éramos quatro vivendo naquela casa, nos tornamos três.

Seu pai não estava mais lá, e ela não precisou mais de mim.

As portas não batiam, os vasos não quebravam e ninguém mais gritava.

Ninguém ria também.

Ela falava pouco, sorria menos ainda. Mas mesmo assim, tudo parecia estar mais tranquilo.

Naquele ano, ela me guardou em uma caixa.

E foi lá que eu fiquei por algum tempo.

 

Uns 30 anos depois, saí do fundo do sótão e me mudei para um novo quarto, logo quando sua filha chegou.

Era a segunda geração daquela família que eu faria parte.

Passamos a dividir dias e noites, sonhos e pesadelos, momentos de amor e de raiva.

A filha parecia muito com ela quando criança.

Tímida, quieta e doce.

Já ela, de quem fui tão próximo durante 12 ou 13 anos, me lembrava muito sua mãe.

Tensa, apática e triste.

 

Éramos em quatro naquela casa, embora na maioria do tempo ficássemos apenas nós três. Eu, ela e a filha.

Já o marido não costumava passar muito tempo por lá.

Chegava sempre tarde e assim que a maçaneta virava, ela rapidamente levava eu e a filha de volta para o quarto.

Não o víamos com tanta frequência, mas paredes finas da casa entregavam uma história que se repetia pela segunda vez.

Embora eu já estivesse acostumado com tudo isso, sua filha ainda não estava.

Porta.

Vaso.

Grito.

Choro.

Eu já sabia o que fazer.

Sabia que precisava abraçar, distrair e ajudar.

Precisava ser forte para aquela criança, do mesmo jeito que tinha sido para ela no passado. 

E então, ficávamos ali.

Às vezes por alguns minutos, às vezes por algumas horas.

Abraçados debaixo do edredom, com todas as luzes apagadas.

Com o passar do tempo, a menina doce já não era mais tão doce assim.

Os abraços ficaram mais apertados, a ponto de doer.

As brincadeiras deram espaço para os tapas e os socos.

E o carinho se tornou raiva.

A história se repetia da mesma maneira.

Não sei como, nem por quê.

 

Mas o final não foi o mesmo.

 

Naquela noite, a maçaneta virou e nós voltamos para o quarto.

Ficamos debaixo do edredom, tentando não ouvir o que acontecia na sala.

Mas dessa vez, foi impossível.

Os gritos eram mais altos. E o choro também.

Ela implorava para ele parar. Falava que a filha estava no quarto.

Ele não parou.

Já a filha, me agarrava forte, entre lágrimas e socos.

Os barulhos continuaram aumentando.

Ela falou que ele estava bêbado. Ele falou que ela estava louca.

Porta.

Vaso.

Prato.

Vidro.

Mesa.

Cadeira.

Tiro.

Ela parou de gritar.

Outro tiro.

Ele também parou.

E nós ficamos ali.

Abraçados, debaixo do edredom.

 

No dia seguinte, nos mudamos para outra casa.

Fomos morar com a mãe dela, a avó da menina.

As portas não batiam, os vasos não quebravam e ninguém mais gritava.

Mas como algumas coisas não mudam, ninguém ria também.

Ninguém conversava.

Ninguém sorria.

Aquela criança tímida, doce e quieta se tornou tensa, apática e triste.

Igual a ela.

 

Depois daquele dia, a filha não precisou mais de mim.

E talvez não vá se lembrar tão cedo do porquê precisou. 

Do mesmo jeito que ela não lembrou até precisar de novo.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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