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Troféu - Você não está sozinha | AVON

TROFÉU [Violência Patrimonial]

 

Foi em 2015, no Rio de Janeiro, quando nos encontramos pela primeira vez.

Ela me chamou a atenção logo de cara.

A touca e os óculos não me deixavam ver seu rosto com tanta clareza.

Mas o sorriso de orelha a orelha entregava a emoção da menina que estava prestes a fazer história.

Era a última prova de um longo dia de competição. Ela mergulhou na água e, para a surpresa de todos, ultrapassou com vantagem as outras competidoras.

O talento daquela jovem mulher conquistou todos que assistiam, torciam e gritavam. Gritos esses que fizeram seu nome ecoar por todo o ginásio.  

Ela subiu no pódio e, entre lágrimas de alegria e pulos de euforia, nossa história começou.

 

Voltei para casa com ela.

Chegando lá, ganhei um lugarzinho especial, logo na entrada do apartamento.

Qualquer um que passasse por aquela porta me via.

E ela não hesitava em me exibir para todo mundo.

Familiares, amigos, o técnico do ar-condicionado, algumas diaristas que passaram por lá... Todos que entravam naquela casa ouviam nossa história.

Com o tempo, outros como eu foram aparecendo, e logo aquela prateleira foi ficando cheia.

Mas eu nunca deixei de me sentir o principal.

Fui o primeiro a chegar e ficava sempre à frente de todos.

Era o maior, mais imponente e mais bonito que tinha ali.

Era de mim que ela mais se orgulhava.

Era a minha história que mais tinha marcado sua vida.

 

Foi numa noite de inverno, dessas bem geladas, que ele chegou pela primeira vez.

Diferente de todos os outros que já haviam entrado naquele apartamento, ele pareceu não se importar com a minha presença ali.

Não se preocupou em ouvir nossa história e sequer olhou para mim.

Naquele dia, não vi seu rosto.

Nos outros cinquenta ou sessenta depois, também não.

Estranhei o fato de sua presença ter se tornado algo comum naquela casa.

A maioria das pessoas que passava por lá não voltava mais.

Entre treinos, viagens e competições, não sobrava tempo para namorar.

Mas com ele, foi diferente.

A história de amor começou mais rápido do que sua velocidade na piscina.

 

Não demorou muito para que a prateleira em que eu morava parasse de encher.

A menina que nunca estava em casa começou a passar seus dias atirada no sofá, assistindo pela televisão às provas que, até então, costumava ganhar.

Já ele chegava sempre ao final do dia. E assim que colocava a chave na maçaneta, ela desligava a televisão.

A minha história e a de todos os outros que estavam ao meu lado também parou de ser contada.

Não que houvesse alguém para ouvir.

Ele nunca se interessou. E ninguém além dele entrava naquela casa.

 

Em um sábado de manhã, antes mesmo do Sol raiar, ela saiu de casa. Sozinha.

Voltou algumas horas depois, dessa vez, ao lado dele.

Os dois gritavam mais alto que a plateia durante aquela prova em que nos conhecemos.

Ele não queria que ela tivesse competido.

Ela não queria que ele estivesse bravo.

Ele a puxou pelo braço, derrubando no chão a bolsa que ela carregava.

Percebi que havia ali outro como eu, que não chegou a tempo na prateleira.

Prateleira essa que, em breve, já não existiria mais.

Em poucos instantes, todos os outros estavam espalhados pelo chão.

Menos eu.

Ele me pegou e, sem hesitar, me jogou contra ela com toda sua força.

Caímos no chão, lado a lado.

Aquela foi a primeira vez que vi o rosto dele.

Consumido por uma raiva capaz de transbordar qualquer piscina.

Aquela foi a última vez que vi o rosto dela.

Com lágrimas suficientes para transbordar qualquer piscina.

 

Não sei dizer se ele voltou para o apartamento depois daquele dia.

Fomos colocados dentro de uma caixa, no fundo do armário.

Dali em diante, não éramos mais uma história de vitória.

Mas eu continuava sendo o troféu que mais tinha marcado sua vida.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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