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Taça - Você não está sozinha | AVON

TAÇA [Violência Psicológica]

 

Éramos seis.

Todas iguais, novas e empolgadas com essa nova etapa.

Foi ela quem nos escolheu.

Lembro que não foi uma decisão fácil. Ficou dividida entre algumas outras opções, mas nós é que acabamos voltando para casa com ela.

O apartamento era lindo e enorme. Tudo milimetricamente decorado e pensado.

Assim como nós, haviam muitas outras por ali. De outras cores, tipos e tamanhos.

Todas ficávamos sempre juntas. 

 

Uma funcionária passava o dia sozinha no apartamento. Lavava roupas, passava lençóis e edredons, limpava poeiras e cacos de vidro.

Já ela e o marido trabalhavam muito. Chegavam sempre tarde, lá pelas 20h.

Ela tomava banho, preparava o jantar e escolhia entre nós seis alguém para participar desse momento.

Já ele ia direto para a mesa, em que tudo já estava organizado.

Entre uma garfada e outra, goles grandes do vinho. Sempre francês.

Um, dois, três, quatro, cinco...

No começo, ela bebia também. Dizia que era para comemorar alguma coisa.

Mas, com o tempo, trocou o vinho pela água.

Estava sempre de dieta.

 

Devo ter participado de uns oito jantares. Eu ficava sempre no fundo da prateleira, então dificilmente era a primeira a ser escolhida.

Algumas das outras foram mais vezes. Mas nem todas voltaram para contar como tinha sido.

Com o tempo, nos acostumamos com isso.

Sabíamos que se o jantar demorasse muito, ou se o vinho fosse substituído pelo uísque, alguém não estaria de volta.

Grito.

Grito.

Grito.

Vidro.

“Desculpa, eu te amo”.

Em dois meses, viramos três.

 

Os jantares dos quais participei costumaram se repetir da mesma maneira: um gole atrás do outro até que a garrafa francesa estivesse vazia. E à medida que a bebida entrava, as palavras saíam de forma diferente.

 

Ele falava muito. Ela, um pouco menos.

Ele falava alto. Ela se controlava para apenas concordar.

Ele perguntava, questionava, queria sempre saber de todos os detalhes do dia.

Ela contava, com calma e tranquilidade. Dava atenção, servia mais vinho e tirava os pratos da mesa.

Ela fazia exatamente tudo do jeito que ele queria.

Pelo menos até então.

 

O meu nono jantar foi numa quinta-feira.

Era uma daquelas noites geladas, em que nada é melhor que um bom vinho.

Ela pensou em acompanhá-lo, mas foi rapidamente lembrada do regime.

Acabou bebendo água.

A noite continuou da mesma maneira de sempre: às vezes, com um tom de voz elevado, um ou outro xingamento e perguntas das quais ele não queria saber a resposta.

Lá pela quinta ou sexta vez que ela me encheu, as coisas começaram a mudar.

Ele, já exaltado, pediu para que ela trocasse a bebida.

Nesse momento, ela congelou. Ergueu a postura e foi até a cozinha pegar a outra garrafa.

Ela tremia, como se já soubesse o que ia acontecer ali.

Serviu um copo e entregou para ele.

Eu, já deixada de lado na mesa, olhei para ela e não reconheci sua expressão.

A cada gole de uísque, o tom de voz dele aumentava. As provocações se tornavam mais intensas e ela ia ficando cada vez mais assustada.

Não lembro exatamente o que ele dizia, mas daquela vez, ela não abaixou a cabeça.

Retrucou.

Respondeu.

Pediu respeito. Pediu carinho.

A cada palavra que saía da boca dela, ele gritava um pouco mais.

Descontrolado.

Chamava ela de louca, de nomes que não quero nem repetir.

Levantou bruscamente, jogou a cadeira longe.

Empurrou tudo no chão. Os pratos, o copo de uísque, a garrafa de vinho.

Ela.

Eu.

 

Grito.

Grito.

Grito.

Vidro.

 

Fiquei ali. Quebrada, despedaçada.

Do mesmo jeito que aquelas outras três.

Aquelas outras três que não tiveram tempo de contar o que acontecia antes do pedido de desculpa.

 

“Desculpa, eu te amo”.

 

Ele a ajudou a levantar do chão e a levou para o quarto.

Depois daquilo, nunca mais os vi.

No dia seguinte, a funcionária juntou meus cacos e jogou fora.

Em dois meses, viramos três.

Em dois meses e meio, restaram apenas duas.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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