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Salto - Você não está sozinha | AVON

SALTO [Violência Moral e Patrimonial]

 

Éramos inseparáveis.

Nossa relação começou há cerca de cinco anos e, desde então, foram milhares de jantares, festas, comemorações e passeios de fim de semana.

Ela me tratava diferente de todos os outros e sempre me escolhia para ocasiões especiais.

Eu estava lá quando ela se formou na faculdade. A primeira daquela família simples a conseguir isso.

Estava também na primeira entrevista de emprego e no dia em que ela pisou em um escritório pela primeira vez.

E finalmente estávamos lado a lado naquele que tinha tudo para ser o dia mais especial da sua vida.

Foi um casamento pequeno, mas lindo.

Ela, sempre vaidosa, ficou meses juntando dinheiro para comprar o vestido dos sonhos. A única coisa que coube no seu orçamento apertado.

O resto ficou por conta dele. Um homem simpático e de “boa família”, como costumava dizer sua mãe.

 

No começo, foi tudo lindo.

Continuamos saindo juntos. Eu, ela e ele.

Aos poucos, as festas se transformaram em jantares na casa da sogra.

E as comemorações com os amigos do trabalho, em idas ao cinema.

As saias e vestidos deram espaço para a calça jeans.

O batom vermelho, que ela tanto amava, foi trocado por um mais discreto.

E o cabelo solto e comprido passou a estar sempre preso.

 

Seis meses depois, eu parei de sair.

Fiquei guardado no fundo do armário, ao lado de uns chinelos velhos e de um tênis furado.

Não entendi muito bem o porquê.

Vira e mexe, ela me tirava de lá, sempre quando estava sozinha em casa.

Passava o batom vermelho, soltava o cabelo e experimentava os vestidos e saias que tanto amava.

Ela desfilava pelo corredor que ligava o quarto à sala, com a confiança daquela mulher que eu costumava conhecer.

Mas era isso.

Aquele trajeto foi o único que eu percorri por um bom tempo.

E foi o único que ela percorreu também.

 

Já ele, nunca estava em casa.

Costumava ligar lá pelas 20 horas para dizer que estava preso no trabalho.

Ela desligava o telefone e chorava.

Dia sim.

Dia não.

Dia sim.

Dia não.

 

Em um sábado qualquer, ele a avisou que iam sair.

Uma confraternização de fim de ano na casa do seu chefe.

Pediu a ela que ficasse bonita e apresentável, já que ele precisava impressionar os colegas do escritório.

Às 18 horas, ela começou a se arrumar. Experimentou três vestidos diferentes, testou alguns penteados e trocou o batom algumas vezes.

Acabou escolhendo o vermelho.

No momento em que ela abriu o armário, eu senti que aquele era meu dia de sorte.

Finalmente íamos sair juntos, como nos velhos tempos.

 

Ela passou seu perfume preferido, se olhou no espelho e, em muito tempo, pareceu admirar a mulher que via no reflexo.

Saiu do quarto e foi encontrar o marido já pronto, sentado no sofá da sala.

Chegou por trás e deu um beijo em seu rosto.

Ela estava empolgada, reluzente. 

Ele virou o rosto e olhou para ela, mas o sentimento não parecia ser o mesmo.

A olhou de cima a baixo, com ar de reprovação.

Levantou do sofá bruscamente.

Quis saber aonde ela iria daquela maneira. E o que ela estava querendo vestida daquele jeito.

A empurrou, fazendo com que ela torcesse o pé e caísse naquele mesmo corredor onde costumávamos passear juntos.

Ficamos ali.

Jogados no chão.

Enquanto ele continuava gritando.

 

Puta.

Puta.

Puta.

 

Ela chorava e tremia de medo quando ele abaixou.

Passou a mão em seu rosto, borrando todo o batom vermelho.

Rasgou seu vestido favorito e me jogou para a sala.

Pelos cabelos soltos, a puxou para dentro do quarto.

 

Vagabunda.

Mulher de respeito não se veste assim.

Bateu a porta e saiu.

 

Fiquei largado embaixo do sofá, de onde a ouvi chorando por horas.

Naquela noite, ele não voltou para casa.

Já ela, só saiu do quarto no dia seguinte.

Com os cabelos presos, uma calça jeans e uma camiseta branca, recolheu os restos do vestido e me pegou.

O rosto inchado e vermelho entregava a noite em claro.

E entre lágrimas e soluços, nos colocou em um saco de lixo, que foi deixado na calçada.

Depois de cinco anos, nossa relação chegou ao fim.

Naquela casa, não tinha espaço para nós dois.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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