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Panela - Você não está sozinha | AVON

PANELA [Violência Patrimonial]

 

Cheguei àquela casa junto deles.

Recém-casados, felizes e ansiosos por tudo que estava por vir.

Eu fui um presente para eles.

E por alguns anos, eles também foram para mim.

Não sei dizer há quanto tempo eles se conheciam, mas lembro claramente daquele primeiro dia em que os vi.

Foi num domingo à noite, quando ele decidiu fazer algo especial.

Um macarrão com frutos do mar. Sua especialidade.

Ela amou.

Amou tanto, que aquela mesma receita se repetiu inúmeras vezes depois.

Em alguns anos, com mais frequência que em outros.

Aquela e muitas outras.

Sempre à noite, quando ele chegava do trabalho.

No resto do dia, ela fazia de tudo por ali.

Limpava, passava, cozinhava, lavava.

Mas nunca saía.

Só para fazer as compras. O macarrão, os frutos do mar e todo o resto.

Com o dinheiro que era sempre deixado por ele, na bancada da cozinha.

Quando ele esquecia o dinheiro, ela não fazia as compras.

 

Os dias dela eram sempre bem tranquilos.

Pelo menos até então...

 

Em uma sexta-feira qualquer, ela limpou toda a cozinha.

Lavou a louça que havia se acumulado na noite anterior e preparou duas ou três refeições, que foram guardadas carinhosamente na geladeira, em potinhos separados.

Quando tudo estava organizado, pegou uma pequena mala e saiu.

Lembro de ouvir algo sobre visitar a mãe ou a irmã. E embora aquela tenha sido a primeira vez que ouvi falar delas, fiquei feliz em saber que ela sairia um pouco.

 

Poucas horas depois, ele chegou à casa, carregando uma sacola de supermercado.

Abriu a geladeira e encontrou os potinhos que haviam sido deixados pela esposa, mas mesmo assim, resolveu cozinhar.

Pegou todos os ingredientes e se aproximou do fogão para preparar o famoso macarrão com frutos do mar. O prato favorito dela.

Assim que o jantar ficou pronto, a campainha tocou.

Ele, antes ansioso, abriu um sorriso no rosto. Respirou fundo e recebeu, dentro daquele apartamento que era nosso, uma mulher desconhecida.

Conversaram por horas: sobre o trabalho, os sonhos, as viagens.

Fizeram de tudo um pouco e não demorou muito para que ele estivesse em cima dela.

Do mesmo jeito que eu o via com a esposa. Ou pelo menos costumava ver há alguns anos.

 

A sexta virou sábado e, no domingo, ela voltou, lá pela hora do almoço.

Foi direto para a cozinha, onde nos encontrou.

Eu estava no fogão, enquanto ele preparava alguma coisa para comer. 

A água fervia.

Na pia, alguns pratos sujos, com lembranças daquela sexta-feira.

Na geladeira, aquelas duas ou três refeições que ela havia deixado, intocadas. 

Ela olhou para a pia, abriu a geladeira e começou a chorar. De um jeito que eu nunca tinha visto antes.

O olhar de decepção daquele dia era diferente de todos os outros. Diferente de quanto ele errava o ponto da comida ou não a levava para sair. 

Ela o confrontou. Com uma coragem que eu não sabia que existia ali dentro.

Jogou todos os pratos no chão, despedaçando-os pela cozinha.

Gritou.

Chorou.

Cobrou a verdade.

Ele a segurou pelo braço, com um olhar cheio de raiva. Disse que ela não tinha o direito de acusá-lo daquela forma.

Absurdo.

Vergonha.

Ridícula.

Quando a raiva já não cabia mais dentro dele, a empurrou, fazendo com que ela batesse na bancada da cozinha.

Ele começou a gritar.

Louca.

Louca.

Louca.

Virou para o fogão, consumido por um ódio irracional.

Me pegou.

Quente.

Fervendo.

Com uma força que só não era maior que a raiva, atirou toda a água.

Quente.

Fervendo.

Depois disso, não ouvi mais nenhum grito ou choro.

Ela ficou ali, paralisada no chão da cozinha, enquanto ele ligava para a ambulância. Contou a eles que sua esposa tinha sofrido um acidente de cozinha.

Faz três meses que não a vejo, acho que ela ainda está no hospital.

Faz três meses que ele prepara macarrão com frutos do mar todas as sextas-feiras.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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