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Almofada - Você não está sozinha | AVON

ALMOFADA [Violência Física]

 

Nossa relação começou em uma pequena casa no interior.

Pequena, mas muito simpática. Daquelas que sempre cheira a bolo fresco.

Ela nasceu lá mesmo, há uns 30 e tantos anos.

Desde o dia um, foram pouquíssimas as noites que passamos separadas.

Eu segui todos os seus passos.

Do interior à cidade grande.

Das noites de pesadelo aos domingos de ressaca.

Viajamos juntas pra tudo que é canto.

Praia, campo, sítio... Até mesmo pro exterior.

Quem diria que aquela menina de cidade pequena conseguiria ir tão longe.

Ao longo dos anos, conheci sua família, suas amigas e todos os seus namorados.

Eu sempre estive lá. Na primeira festa do pijama, na primeira vez, no primeiro coração partido. 

Teve também uma fase em que nossa relação ficou um pouco fragilizada.

Ela devia ter uns 14 ou 15 anos quando decidiu que não precisava mais de mim. Que eu era coisa de criança.

Me deixou pra trás algumas vezes, me colocou no fundo do armário.

Nada disso funcionou. Não tinha jeito.

Ela não conseguia dormir se eu não estivesse presente.

 

O último lugar onde moramos foi uma casa de vila.

Que me lembrava muito da nossa primeira casinha no interior.

Exceto pelo cheiro de bolo.

Ela se mudou para lá logo depois do casamento.

Confesso que hesitei um pouco no começo.

Me incomodava a ideia de ter alguém dividindo a cama com a gente. Dividindo um momento que sempre tinha sido tão nosso. 

Mas aos poucos, fui me acostumando.

Ele também conseguiu ir me conquistando com o tempo.

Nunca fui fã número um da sua presença, mas também nunca tinha a visto tão feliz.

Juntos, fizemos um pouco de tudo.

Viajamos para novos lugares, maratonamos séries jogados no sofá.

Eles conversavam sobre o dia, o futuro, os sonhos. E eu sempre lá.

Os primeiros quatro anos foram cheios de amor. Literalmente.

De manhã, à noite, e até mesmo no meio da tarde durante os fins de semana.

Às vezes, eu ficava um pouco constrangida em fazer parte desses momentos.

Mas logo em seguida, ela me abraçava carinhosamente, pronta para dormir, e eu podia sentir sua felicidade.

 

No quinto aniversário deles, as coisas começaram a mudar.

As noites em claro conversando sobre o futuro deram espaço para a cama vazia. Por alguma razão, ele não estava mais lá durante a noite. 

Já ela, me agarrava e chorava compulsivamente.

Um choro tão desesperado quanto o daquele primeiro coração partido.

Com o tempo, os programas de TV foram substituídos pelo som de portas batendo.

As noites de sono pesado se transformaram em noites em claro.

Os abraços agora eram de medo.

Como daquela menina de interior que tinha pesadelo com os monstros de baixo da cama.

 

Todo esse medo acabou numa terça-feira, enquanto assistíamos a um filme na televisão.

Ela estava apoiada em mim quando teve um ataque de riso.

Que fez derramar lágrimas sobre nós duas.

Lágrimas de felicidade, coisa que eu não testemunhava há muito tempo.

 

A risada foi interrompida assim que ele chegou à casa.

Vermelho, suado, nervoso.

Com uma expressão que eu nunca tinha visto. Em nenhum filme, em nenhuma série.

Ele me agarrou enquanto gritava.

Fui pressionada com toda a força sobre a cabeça dela.

Queria ter conseguido sair dali.

Queria ter gritado tão alto quanto ele, ter impedido aquilo de alguma forma.

Queria poder lembrá-lo das conversas no sofá, dos sonhos, de todos os planos traçados durante aqueles quatro primeiros anos.

Mas eu não podia.

 

Fiquei esmagada contra seu rosto por alguns minutos, até que parei de sentir sua respiração quente.

Parei de sentir seu medo.

Parei de ouvir seu choro.

 

Ela não conseguia dormir se eu não estivesse presente.

E com a minha ajuda, ela dormiu pela última vez.

 

Às vezes, a única testemunha não pode falar por você.

 

 

 

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